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O SENTIDO DA LIBERDADE PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
Ter, 01 de Março de 2011 00:38

Vivemos em um tempo em que se fala muito de liberdade: liberdade política, liberdade sexual, liberdade religiosa, de ir e vir, de se assumir como se é ...

Esse grande movimento das liberdades, contudo, não é tão atual assim, tendo suas raízes calcadas no período pós renascença, a partir dos séculos XVI e XVII, quando o Humanismo e o Iluminismo colocaram o homem como centro do universo e dos interesses sociais, e o uso da razão livre e esclarecida como norteadora dos caminhos dessa humanidade que emergia de tempos de repressão religiosa.

Claro que, diante de uma repressão tão ostensiva, não poderia deixar de haver uma reação tão ostensiva quanto esta, e os movimentos de liberdade ultrapassaram os limites daquilo que deveria ser o bom senso e a preservação da própria qualidade da vida humana, para se tornarem um grito desesperado de revolta contra tudo aquilo que foi proibido e sufocado.

Foi o que assistimos principalmente no período após a segunda guerra mundial, com o movimento hippie, as liberdades sexuais, a exacerbação do uso de drogas, etc...

Mas nossa questão aqui é nos perguntarmos: será que somos realmente livres? O que significa o conceito de liberdade, dentro daquilo que pode ser alcançado?

Pensemos no seguinte: você é um homem, acorda pela manhã, se prepara para ir trabalhar, abre seu guarda roupas e escolhe uma calça para vestir; esta escolha foi por livre opção? Não, não foi! Você pode até pensar que teve liberdade para esta escolha, mas ela foi construída muito antes daquele momento, quando você era criança e seus pais lhe ensinaram que homens exercendo responsabilidades sociais devem se vestir usando calças compridas. Se você tivesse nascido na Escócia vestiria saias, mas aqui no Brasil vai vestir calças compridas.

E é assim que funciona com a maioria, senão todas, das nossas escolhas. Nascemos com uma memória apagada das aprendizagens anteriores, e precisamos ser recondicionados a compreender o mundo tal qual ele vem sendo organizado. E essa compreensão será estruturada pelas idéias daqueles que nos educam e da sociedade em que estamos inseridos.

Dessa forma, vamos ficando presos a sistemas de crenças, ideologias de vida, hábitos do cotidiano, formatos de reagir aos estímulos externos, neuroses, que não são necessariamente nossos, mas daqueles com que temos convivido ao longo de nossas existências. 

Durante um bom tempo, esses condicionamentos vão sendo vividos como uma escolha de nossa liberdade pessoal, trazendo uma certa cota de prazer, mas nos mantendo alienados de nossa própria essência, de nossa verdadeira autonomia para fazer escolhas. E isso faz com que aquele prazer que estamos vivendo seja apenas parcial, um prazer de copiar aqueles a quem amamos ou de quem necessitamos aprovação, mas não o nosso verdadeiro prazer. E isso pode nos levar a situações de insatisfação com a vida, angústias, neuroses, depressão e outros transtornos piores, sem que identifiquemos suas verdadeiras causas.

Chega a hora então de pararmos para analisar o que têm sido nossas reais escolhas e o que estamos copiando de nossos educadores.

É possível romper totalmente com esta cadeia condicionante?

Claro que não, pois isso resultaria em uma anarquia coletiva. A aceitação das normas sociais faz com que a humanidade adquira um sentido e uma organização que lhe garantem segurança. A questão é de viver-se entregue totalmente a esta ilusão ou aceitá-las conscientemente, como um ato de escolha autônoma em favor de uma ordem comum, permitindo-nos uma real e mais essencial liberdade naquilo que seja razoável.

É possível então ser livre no seu sentido absoluto? Me parece que não. Fazer o que se quer, liberto de qualquer influência condicionante é uma utopia inalcançável.

Talvez a única liberdade real que temos é a de aceitar estes fatos e vivê-los por opção consciente, sendo felizes na lucidez e na autonomia que esta escolha nos proporciona. 

Isso pode parecer não fazer muita diferença quanto às vivências inconscientes e condicionantes, mas faz; faz a diferença de nos tornar senhores de uma escolha verdadeira e, por isso mesmo, mais fortes para enfrentar aquelas frustrações que serão inevitáveis.

João Carvalho NetoPsicanalista, autor dos livros“Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal”

www.joaocarvalho.com.br  

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